LAZER 18 de novembro de 2015

Desventuras na Austrália (parte 2)

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(continuação do post anterior)

Pra poder trabalhar como garçom na Australia é preciso fazer um curso de “Serviço responsável de álcool”. Uma estupidez de 8 horas que basicamente lhe ensina que você não pode servir menores e pessoas alcoolizadas. O valor? Quase R$300,00. Mas considerando que um garçom faz cerca de R$450,00 por dia, até que é não é tão doloroso.

Terminei o curso e lembrei-me de uma rua simpática cheia de restaurantes que poderia ser um bom ponto de partida para despejar currículos (que obviamente estão cheio de experiências falsas em restaurantes brasileiros). Só que cheguei lá por volta das 16:00 e quase todos os restaurantes estavam fechados. Vi que dentro de um mexicano uma mulher varria o chão e toquei na porta.

Era a gerente, uma alemã. Ela olhou o meu currículo e ficou feliz de ver que estou estudando alemão e puxamos assunto. Ela comentou que no momento não havia vagas, mas que me avisaria caso surgisse. Dia seguinte, uma quarta-feira de manhã, ela me ligou pedindo para que eu fizesse um “teste” na sexta-feira e viesse com uma camisa branca. Ah, esses testes quase nunca são pagos, mas tudo bem.

Sempre subestimei a função do garçom. Especialmente nos botecos quando eles me ignoram pra trazer uma simples cerveja. É tanto detalhe, pedido, processo, regras, etc que você só passa a valorizar o trabalho quando entende os bastidores. “Aprendi” todos os truques da função com vídeos no Youtube e já me sentia preparado para arrebentar.

Na sexta-feira, dia da minha triunfal estreia, chovia muito em Sydney. No caminho para o restaurante lembrei da caralha da camisa branca, que eu não trouxe do Brasil, e por sorte tinha uma loja de departamento (tipo C&A) perto. Havia três tipos de camisa branca, uma que custava R$400,00, outra que parecia ter sido guardada dentro de uma caixa de fósforo e a terceira que eu parecia um vendedor de morangos (comprida na cintura e manga curta).

Bateu um desespero, pensei em ir com a amassada e falar que era o estilo da camisa, mas acho que não ia colar. Por uma luz divina, observei umas polos brancas em um cantinho da seção que eram bem baratinhas, comprei uma e um guarda-chuva para não chegar transparente no lugar.

Ao abrir a porta do restaurante, creio que tinham uns quatro pessoas lá dentro, além dos funcionários. Como é uma rua sem lugar pra parar (e sem vallet) a chuva afugentou boa parte da clientela. Encontrei a alemã, ela mal olhou na minha cara. Tive que relembrá-la sobre o “teste” e com a maior cara de pau ela disse que o combinado era sábado. Foi então que descobri o truque do “teste”, em que muitos gerentes pedem para as pessoas trabalharem de graça para dar vazão aos dias mais cheios e logo na sequência dispensam sem nenhum custo para o negócio. Ela poderia ter me explicado o funcionamento do restaurante já que não tinha quase cliente, mas como o objetivo era apenas dar vazão aos pedidos, eu não servia.

Sai de lá, respirei fundo e não deixei me abater pela derrota. Lembrei-me de uma churrascaria brasileira que um amigo havia comentado que eles sempre contratam brazucas. Cheguei no lugar e fui bem recebido por um garçom brasileiro que me explicou que provavelmente haveria vaga na próxima semana. Nisso apareceu o gerente, um chinês, que parecia o Cebolinha falando inglês. A entrevista foi bizarra porque eu mal entendia o cara e pelo visto ele deve ter pensado que meu inglês é uma merda.

Por fim, fui até uma agência de “hospitalidade” que recruta pessoas para trabalhar em grandes eventos. Chegando lá a atendente perguntou se eu dominava a técnica dos “três pratos”. Como eu já tinha assistido no Youtube um vídeo a respeito, falei de peito cheio que sim. Ela me chamou para uma salinha que havia uma caralhada de copos, talheres e pratos e pediu que eu apresentasse a técnica. Fiz daquele jeito, meio nervoso. Na sequência ela pediu que eu levasse taças para uma mesa fictícia e servisse vinho e depois que eu montasse uma mesa (com aqueles milhares de talheres). Nessa hora falei que não tinha ideia de como montar. A mulher foi complacente, disse que eu preciso de mais prática e que voltasse lá depois de três meses.

Completamente derrotado, sem conseguir trabalhar como pedreiro e inexperiente para garçom fui naquela sexta para a casa preparar o meu jantar sozinho, já que a família tinha saído para uma festa em outra cidade. Comprei um vinho no caminho e liguei o som pra cozinhar o prato que venho comendo há um ano, frango com salada e arroz integral.

Mal piquei a cebola e começou a tocar “Garota de Ipanema” na rádio. Nessa hora lembrei-me de tudo o que tinha deixado para trás, a situação que eu estava e confesso que a cebola ardeu meus olhos. Respirei fundo de novo, tomei um bom gole do vinho e voltei a cozinhar. No final do jantar só tinha um quarto da garrafa e fui tomar banho pra baixar o álcool.

Cheguei no banheiro e vi que o suporte do papel higiênico tava meio triste, pendendo pra baixo, quase derrubando o rolo. Tentei coloca-lo pra cima e o suporte quebrou na minha mão. Nem objetos inanimados estavam me ajudando.

Aproveitando que estava sozinho, dirigi-me à banheira pra ficar lá de molho e sem querer chutei o ralinho do banheiro, que era mal desenhado, e caiu dentro do buraco. Coloquei um saco plástico na mão e resgatei a tampa do ralinho. Veio tanto cabelo com nojeiras grudadas nele que parecia que eu segurava uma Barbie do inferno. Limpei aquilo, coloquei-o no lugar e finalmente tive o descanso que precisava.

Eu nunca me iludi sobre morar fora. As fotos de cangurus fofos, as praias maravilhosas, o céu incrível, etc, etc é a ponta mais bonita do iceberg que boa parte das pessoas que tentam a vida no exterior mostram no Instragram/Facebook. Quase ninguém tira foto da maloca que dormem, quebrando calçada com britadeira, trabalhando de madrugada, dos pratos de comida paupérrimos e por ai vai. No fundo até entendo essas pessoas, pois sempre tem alguém julgando quem saiu do país e mais atrapalhando que ajudando com o discurso de dó travestido de motivacional.

Abandonar o seu país para viver fora é como romper um casamento que não tá legal e voltar ao clube dos solteiros. É ter coragem de reconhecer que a relação não está boa, que a zona de conforto não compensa todos os problemas diários, romper, e como diz o Dinho, reaprender a andar descalço em um mundo de asfalto. O mais importante é ter um objetivo em mente e prazo (razoável), ter paciência com a readaptação e ir superando cada fase. No final, se não der certo, é só redefinir o objetivo, mas a jornada já valeu a pena.

  • Roberta Corrêa

    Gargalhei com sua definição para “blusa de vendedor de morangos”! hahaha

  • Jordana Proença

    Quando saí do Brasil tb passei perrengue pra caramba. Nao é facil, e não é td lindo como as pessoas dizem. Mas vale a experiência, a sacudida na vida, no emocional e na personalidade! Boa sorte aí… E calma, pq as coisas melhoram!

  • Camila ( carioca)

    Um dia de cada vez, os fins justificam os meios. Respira. Lá na frente vc vai rir disso tudo e verá como valeu a pena!

  • Di

    Ooo cafa. Tá precisando de um abraço amigo né. Sei como é. Há 5 meses também deixei minha casa pra seguir um.outro sonho fora do país. Minha situação é diferente da sua mas mesmo assim tem hora que dá vontade de correr pra casa chamando nossa mãe. :/

  • Ana Vargas

    A cebola ardeu seus olhos?
    kkkkkkkkkkkkkkkkkk ri muito.
    É, está sendo muito perrengue por ai ein?
    Mas vai dar tudo certo, sempre dá para quem tem metas traçadas e acredita mesmo quando temos a impressão de que nada vai acabar bem.
    Admiro sua coragem e sei que logo, logo, as coisas vão melhorar pra você por aí!

  • Lorena

    A vontade que tive foi te dar um abraço e dizer que tudo vai ficar bem. Coisas grandes estão predestinadas a pessoas que dão a cara a tapa, encaram as dificuldades de frente e de cabeça em pé. No fim tudo dar certo Cafa, é clichê, mas é verdadeiro. Força e siga em frente, estamos torcendo por você. Beijão

  • Taíssa Moura

    Cafa, entendo bem o que voce ta passando, passei pelo mesmo, mas hoje, estabilizada em outro país, te digo: nao desiste, vale MUITO a pena!! =)

  • Gve

    Fiquei feliz de reencontrar o blog. Sou sua conterrânea e tb tô no momento fundo do poço morando fora. Se é q te consola, minha situação é muito pior: apesar de vir 50% pelo emprego exato para impulsionar a carreira e 50% por amor; a segunda metade desandou tão grandemente que eu juro que dava tudo pra estar arrancando uma barbie do ralo de um bordel sem plástico na mão. Explico: 1 semana após morar junto, descobri que estava sendo traída.. e com outros homens :/
    Ok, eu tenho a carreira pra me apoiar, mas como disse, o projeto de largar tudo era composto por 2 frentes e a queda foi dura demais.
    Enfim, fica minha solidariedade e votos de que encontremos logo a mola no fundo desse poço… Boa sorte!

  • Michelle Marques Bastos

    Quando li seu post, me lembrei de um post que escrevi pro meu blog em um momento “desabafo” no inicio do ano, mas acabou ficando perdido em alguma pasta do pc. Acabei animando a encontrá-lo e postá-lo. Confere aí, vai que te consola um pouquinho saber que não esta sozinho neste barco: http://michellemultiplica.wix.com/vem-comigo#!Desmistificando-a-vida-no-exterior/c112t/564f8bc00cf23c042f8ff27d

  • Elaine

    Nossa que difícil! Nessas horas batem as dúvidas : será que tomei a melhor decisão? E se não conseguir trabalhar? É muito complicado, afinal você está sozinho, sem a família, os amigos, a pessoa especial que você conheceu duas semanas antes de viajar. Agora todo o conforto se foi e você está no olho do furacão. É preciso muita coragem e perseverança e isso com certeza você tem. Daqui há um ano estas emoções serão apenas lembranças de uma bem sucedida empreitada.

  • Elen Tolentino Ogando

    E essa vontade que deu de te dar um abraço e dizer: ‘fica assim não amigo, “tamo junto” nessa’.
    Ps: Gosto tanto quando seus post são assim, totalmente sinceros.

  • Renata Torres

    Cafa, estava com saudades de vc já era hora de ter voltado!!!!! Morrendo de rir com suas histórias. Lança logo esse livro! Te admiro, bjs

  • Nathália

    Cafa, você tá sendo tonto. Por que você não começa a levar esse blog a sério e não começa um vlog? Isso dá dinheiro. Você tem talento pra isso, cara. E não existe nenhum vlogueiro por aí que aborde os temas que você aborda aqui. Acho que tá dando mole… De qualquer forma, boa sorte na nova empreitada!

    • http://www.manualdocafajeste.com cafa

      Não tenho muito talento pra vídeo não. =/

      • Rick

        A maioria das pessoas que estão ganhando dinheiro com isso também não tem talento. É tanta coisa tosca e sem sentido que eu também acho que você poderia/deveria tentar.

        • Nilo magalhães

          Tai concordo com vc

      • Aaaaaaaaaa , essa tal de humildade

      • Fellipe Pastorello

        Cafa, apesar de o site ser voltado ao público feminino eu admiro seu blog.
        E eu acho que não da para saber se você tem talento ou não para vídeo se você ao menos tentar, além do mais, tem tantos vídeos e canais idiotas no Youtube que duvido que seus vídeos e seu canal seria melhor do que muitos que tem no youtube, .
        Talvez, fosse uma boa idéia pelo menos pensar no caso.

  • indy

    Ooooh Cafa, desejo sorte nessa empreitada sua!! Sempre admirei pessoas que tem coragem de sair do Brasil e ir morar no exterior, eu mal penso em sair de Brasília a não ser pra viajar… Tomara que as coisas melhorem pra vc!!

  • Natália Fontana

    Gargalhei com o Cebolinha falando inglês, ai Cafa… Tão como eu, quando tomei um pé na bunda e decidi servir ao Exército, boa sorte aí! 😀

  • Fernanda

    cafa, não sei qnt tmp tu vais ficar aqui, mas me disseram que o primeiro ano é o pior :( tenta em subúrbios mais afastados do cbd, tipo 20min de trem. é mta questão de sorte tbm, mas daqui a pouco tu consegues um emprego. e casa, bom, agora as praias tão cheias e o valor ta bem alto mesmo, mas procurando beeeem se acha um cantinho ok pelo menos. bjos

    • Giulianni Battestin

      vamos formar o bloco , fica cafa ,sem querer,cafa vc me ajudou muito,cai nos braços do meu negão e agora estou feliz pacas

  • Aline Carvalho

    Amei que você tenha voltado (e acho que nunca deixei uma mensagem sequer quando lia, há anos atrás, depois que tive um blog repensei esse lance de: entra no meu canto, e nem deixa pegadas que passou), enfim…
    Como é bom ver que está mais maduro, eu tinha um lance de amor e ódio por você, nossa já te xinguei mentalmente (ou porque te achava escroto às vezes, ou talvez pq tinha esbarrado com um cafa bem parecido contigo), mas no fundo agradecia por me fazer ser menos trouxa na vidããn.
    Agora sabendo que tem uma parte para “Lazer” ficou melhor ainda, talvez será a que mais vou ler, pq relacionamentos amorosos caíram alguns patamares de prioridades do lado de cá. 😉
    Sorte e vida longa ao blog. Bjos

  • Bernardo

    Cafa ,teus escritos são bons ,teu talento é indiscutivel,espero que outros caminhos se mostrem ,e novas portas se abram

  • jack mello

    bom texto,continue assim,enquanto isso,vou aproveitando a comidinha do meu amor,veja só o que flagrei,rsrsrsrssr

  • Leona

    a minha desventura na suiça,foi humilhante posto o gif para verem