LAZER 1 de dezembro de 2015

Desventuras na Australia (parte III)

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O verão finalmente chegou do outro lado do mundo, mas o inverno da minha vida ainda está demorando pra passar. Após tantas dificuldades que relatei nos dois últimos posts, achei que nada pior pudesse acontecer, mas a vida sempre encontra um jeito de me surpreender.

Começo da semana passada aproveitei que fazia 30 graus em Sydney, peguei minha bicicleta e fui até a praia, um percurso que leva uma hora. Lá aproveitei para deixar alguns currículos em hostels e fui tomar sol. Assim que deitei na areia senti algo de errado com as minhas costas. Depois de algumas horas lendo e descansando, levantei pra ir embora e senti uma fisgada na coluna. Peguei a bike e voltei. Dormi na minha cama pula-pula (tem mais mola que estofado) e acordei completamente travado, com uma dor insuportável. Tomei café tal qual o Joaquim Barbosa do STF e fui até a farmácia.

Lá comprei um anti-inflamatório que me deu uma reação alérgica e ganhei três aftas na boca, uma na ponta da língua que fez com que eu ganhasse um sotaque meio gay. A minha nova cama era o chão do meu quarto até que eu melhorasse (o que ainda não aconteceu). Pelo menos naquele dia eu fui chamado por uma agência de eventos e teria trabalho para o próximo final de semana.

Junto da marola da sorte, um hostel em frente à praia me chamou para um “trial” no dia seguinte. Lá seria uma baita oportunidade, pois além de acomodação eu ganharia um salário e conseguiria praticar outras línguas.

Cheguei no hostel e o gerente parecia uma mistura de Patropi com o Morto Muito Louco. Quando ele não estava brisando, falava coisas completamente sem sentido e/ou desconexas. Ele me levou para apresentar a estrutura do lugar e quase cai duro com a imundice. O lugar tinha o charme do Carandiru, mas habitado por ingleses e suecos (porcos). Era resto de comida e roupa por todos os cantos e a maioria dos quartos cheirava a mofo. Questionei qual era o quarto do staff (ou seja, o meu) e ele disse que variava toda semana, de acordo com a disponibilidade. Ali já dei uma brochada, mas esperei para ver como seria o trabalho.

Patropi me levou pra recepção e começou a explicar a operação do lugar. Fiquei feliz e aterrorizado. Feliz, pois como a minha última experiência na empresa que trabalhava era na área operacional, e já tinha identificado um monte de oportunidade de melhoras por ali sem nenhum custo. Porém, aterrorizei com tanta gambiarra que o cara fazia. Nada era centralizado. Parte das reservas ficava num excel (desatualizado), a outra em um livro e a outra na cabeça dele.

Achei que a bagunça fosse apenas pelo jeito doidão do cara, mas depois observei que ele utilizava a desorganização para fazer reservas sem registro e assim embolsar o dinheiro. Pensei em conversar diretamente com o dono do lugar, mas não iria arrumar essa briga recém chegado no país. Resolvi não ficar lá e seguir na minha busca.

Saindo desse hostel, vi um restaurante brasileiro, entrei e perguntei para a gerente (uma brasileira) se ela estava precisando de garçom. Ela respondeu que lá só trabalhava garçonete, mas que havia vaga na cozinha. Topei e ela me chamou para um trial no dia seguinte.

O dia do trial foi um dos mais quentes do ano, quase 40 graus. A cozinha era minúscula e a minha função qual era? Cuidar das frituras e louça. Juro, devia fazer mais de 45 graus naquele lugar. E presenciei na pele a velha máxima de não visitar cozinha de restaurante.  O óleo não devia ser trocado há semanas, o sal da batata parecia um pó químico que a menor brisa fazia todos na cozinha tossir de tão forte e refinado que era. Quando tirei a louça da máquina, os pratos e talheres continuavam engordurados, mas o “chef” respondeu que era só eu passar um pano que eles ficavam limpo. Visualmente estavam limpo, mas devia ter um monte de zica não visível.

Terminei o trial e fui conversar com a gerente. Ela perguntou quando eu poderia começar. Fiquei feliz, disse que na próxima semana, mas que gostaria de saber o salário. A mulher surtou. Disse que daquele jeito eu não arrumaria nenhum trabalho, onde já se viu eu atrelar meu início ao salário, que devia estar sobrando emprego pra mim e blablabla. Não entendi um cacete, será que eu deveria falar que sonhei a vida inteira em trabalhar numa cozinha minúscula fritando batata e que o salário é apenas um detalhe?

Respirei fundo mais uma vez e mentalizei que fim de semana haveria dois trabalhos bacanas que eu faria para a empresa de eventos.

O de sexta-feira foi legal. Era uma festa de confraternização de empresa e minha função era apenas servir champagne e polir taça. Moleza. Sai de lá feliz da vida, finalmente com grana no bolso e ansioso para o evento no dia seguinte.

Inicialmente o evento do sábado era um dos maiores festivais de música eletrônica da Australia. Mas um dia antes me realocaram para o show da Taylor Swift e no último minuto realocado para um evento de Motocross. No lugar só tinha homem esquisito e motoqueiro bebum. Ali eu iria trabalhar como caixa.

Uma das mentiras no meu currículo é que eu tinha experiência em caixa. Poxa, não seria tão difícil inserir o pedido no sistema, pegar o dinheiro e dar o troco, mas foi.

Eram apenas dois caixas e assim que cheguei a minha supervisora perguntou onde estava o meu dinheiro. Estava quase falando que na minha carteira, dentro da mochila, mas por sorte ela falou logo na sequência que eu precisava ir até o escritório pegá-lo. Era o dinheiro trocado para colocar no caixa. Peguei o dinheiro e comecei a trampar.

O sistema não era difícil de operacionalizar, mas sempre que alguém saia do convencional (como pedir para mudar o pedido depois que fechou a compra) eu tinha que consulta-la e sempre era um tormento. Ou ela respondia com grosseria ou não sabia e eu tinha que me virar.

Passavam-se as horas e o pessoal ia ficando bêbado e o sotaque mais carregado. A pressão pra entendê-los, uma supervisora mal educada do lado e horas em pé lidando com dinheiro foi mais uma lição de vida. O fechamento de caixa deu tudo certo e voltei pra casa morto.

Dia seguinte eu só queria ir pra praia,  beber e esquecer todos os perrengues. Fui com uma amiga do Brasil mais uns brasileiros e gringos. Acabei bebendo umas duas garrafas de vinho branco e fiquei pra lá de Bagda. Já era quase 20:00 quando eles decidiram ir para um barzinho, e eu achei melhor ir pra casa. Dormi dentro do trem e fui parar quatro estações de onde eu deveria descer.  Como o bairro que moro há uma limitação de trens no fim de semana, o que eu estava era o último daquela noite e tive que pegar um Uber pra voltar pra casa. Por sorte todos em casa dormiam, mas acordei as 5:30 da manhã com a cabeça explodindo e uma das crianças na casa chorando porque o fim de semana tinha acabado. Por pouco não abri minha porta e fui chorar com ele.

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Essa semana volto com a programação normal do blog. Sugestões, rapidinhas do cafa, sexta das leitoras? Só mandar para cafa@manualdocafajeste.com

  • Priscila Maria

    Vc parece perdido nesse lugar, no início é difícil mesmo mas depois melhora um pouco. O importante é que depois de tudo vc pode voltar pra casa e vc ainda tem a gente! :)

  • Di

    Cafa do céu, que vida dura! Parece filme! Mas vamos nos manter otimistas e na pior das hipóteses você tem pra quem voltar. :)

  • Mel

    As coisas vão melhorar! Eu tenho certeza!! S2

  • Tatiane Moura

    Quando li a sua história vi que a minha semana não está tão ruim assim ! Piadas a parte vc é um cara com coragem pois mts já teriam desistido. Coragem cafa! bjus

  • Indy

    Aiii coração, volta pro teu seio <3 kkkkkkkkkk… que do de vc cafa!! Por isso que digo que melhor pais que o Brasil nao tem, nao sei pq as pessoas dão tanto valor a outros paises em detrimento do nosso. Pra passar toda essa dificuldade?! Ah nem… Mas vc é safo, tenho ctz que vai se sair mto bem dessa!! Estamos com vc!

  • Mariana Serrano

    Cafa, morrendo de rir das suas desventuras na Austrália. Mas força que logo as coisas tomam o seu rumo e vc se arruma por ai. Torcendo por vc!

  • Elaine

    Realmente a sua vida está complicada. Mas vai melhorar, você ainda vai rir muito disso. bjs

  • Daphne

    Duas palavras: Nova Zelandia. :)

  • Carolina

    Oi, Cafa. Acabei de descobrir o seu retorno. Era sua leitora, e fico feliz em lê-lo novamente.
    Admiro sua coragem em começar do zero, seja aí, aqui, ou qualquer lugar do mundo. Não tenho muita experiência nessa área, mas queria palpitar uma sugestão. Tem muito campo de golf em Sydney? Experimenta deixar seu CV em algum clube por aí… Não sugiro ser caddie, não. Mas sua diferenciação (educação, cultura e idiomas) pode ser útil num ClubHouse, e você será muito melhor “aproveitado”. Mas a remuneração também não deve ser nada demais.
    Não deve ter tanto brasileiro aí se aventurando em clubes de Golf…
    Boa sorte!

  • Leitora que tambem esta na aus

    Caramba!!! sou leitora das antigas, uma amiga falou que vc tinha voltado com o blog, e quando abro descubro que vc tb esta na austrália! hahaha poxa, boa sorte! Cheguei aqui com o ingles muito bom tb, mas com visto de working holiday por causa do meu passaporte italiano, o que facilitou um pouco mais pra mim! Mas não tem jeito, pra conseguir trabalho na sua area aqui vc precisa ser de alguma area com muita demanda (como IT) ou então fazer um TAFE na area que vc quer atuar. Fui pra Sydney, fiquei 4 meses (ameeei) e depois vim parar em Cairns. Era pra ser temporário, mas conheci meu namorado aqui, ou seja, vou ficar nessa cidade mais do que o planejado. Aqui eh um pesadelo pra conseguir emprego! Cidade minúscula, voltada pra turismo.. Ja estava enlouquecendo pq não arrumava nada! Eis que tive uma ideia mega inusitada e resolvi meu “problema” aqui! Boa sorte, no começo eh sempre muito difícil! Mas continue indo atras, segura o desanimo.. vale muito a pena! Se quiser trocar mais figurinhas e conversar sobre trabalho (cheguei a trabalhar em call center em sydney, posso te falar como foi, como vc conseguir) ou ate sobre a minha nova atividade fique a vontade! sempre legal trocar experiências com brasileiros! e pra mim vc eh como um velho amigo, nunca fui de comentar aqui mas sempre me foi muito util todo tipo de conselho que vc dava pros mais diferentes perfis de leitoras!

  • Michele

    Oi Cafa! Cara, Tb to no mesmo barco que o seu aqui em Sydney! Cheguei há três meses e não tá fácil conseguir alguma coisa legal. Tb trabalho nessa empresa que vc falou do show da Taylor e é assim mesmo, os bicho são bagunçados, desorganizados e vivem cancelando shifts, isso quando não pegamos uns managers escrotos, que não vão com a nossa cara, e aí aguenta xingamento pra cá, grito de lá… Complicado! Enfim, to aqui Tb se quiser conversar, trocar ideias, chorar, hahaha to sabendo como é difícil a vida desse lado do mundo!

    Muito muito boa sorte, e espero que a marolinha de sorte vire logo um tsunami!

    Cheers!

  • Carolinne

    Cafa estou indo para Londres. Ler suas experiências me fez enxergar mais ainda o quanto difícil será . Obrigada! Compartilhe mais experiências! Beijos, boa sorte, fique com Deus.

  • Débora Cardoso

    Cafa vc tá perdendo tempo nesse lugar (minha opinião) e tá dando mole pq vc é Blogueiro, Cafa hoje em dia isso é profissão e tem mta gente ganhando uma grana com isso, investe mais no seu blog não perde tempo procurando trabalho de garçom do outro lado do mundo. A experiência de viver em outro país conhecer novas culturas e pessoas é válida mas acho que seu sucesso está bem na sua frente e vc não está vendo

  • Elaine Bettencourt

    Bom demais

  • Winnie

    Caray,verdadeira sofrencia mano, tava pensando em ir de férias prai,mas agora brochei mano

    • Madeleine

      gulllosa

  • Cezar Goes

    Para tais desventuras a recitação do poema de Manoel Bandeira ,minha terra tem palmeira onde canta o sabiá não permita ……….

  • Vanessa Nascimento

    Nossa :( primeira vez que entro nesse blog procurando informações sobre a Australia pq pretendo ir e tomei um baita susto :(

    Vc ja conseguiu emprego?