LAZER 16 de novembro de 2015

Desventuras na Australia

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Desculpem o sumiço, mas ultimamente ando sem tempo e inspiração pra escrever sobre relacionamentos. As minhas primeiras semanas na Australia não foram fáceis e até hoje ainda mato um leão por dia para recomeçar a vida. Preciso desabafar um pouco e por isso escreverei sobre o que rolou recentemente. Já aviso que o post de hoje não tem romance.

Mentira. Até tem um pouco de romance. Deixei no Brasil uma pessoa que curti bastante e fazemos planos de nos reencontrarmos em breve, por isso estou no modo inativo do outro lado do mundo. Mas não por isso que meus dias tem sido menos tumultuados. Tudo começou antes mesmo de embarcar.

Um dia antes da viagem me dei conta que a empresa de seguro de saúde (item obrigatório para entrar na Australia) fez lambança na minha reserva e eu estava descoberto por duas semanas. Tentei entrar em contato com eles, mas era uma sexta-feira a noite e o escritório já tinha fechado. Peguei o avião com o risco de ter dor de cabeça na alfândega e não conseguir entrar no país.

Tentei relaxar no avião, mas a todo momento vinha na cabeça a preocupação com a fronteira. Depois de uma hora de vôo, tentei relaxar e pedi duas garrafinhas de vinho. Coloquei meu sapato embaixo do banco da frente, estiquei as pernas e coloquei uma música pra descontrair. Tava gostoso. Mas de repente começou uma muvuca de comissários na minha frente, sendo que um deles trazia um cilindro de oxigênio. A senhora que estava na poltrona da frente apagou. Uma das comissárias pediu a gentileza que eu saísse da minha poltrona para ajudar na movimentação e quando eu peguei meu sapato, estava embebido em vomito da mulher. Morrendo de nojo sai correndo para lavá-lo no banheiro, mas era de camurça e a senhora tinha vomitado vinho. Não aconteceu nada com a velhinha, acho que passou mal com o vinho, já eu pisei na Australia com os pés sujos.

Por sorte a polícia não me parou, nem questionou os pés-de-moleque e espumante que eu trazia para a família que me hospedaria. Que vale uma menção à parte.

Eu estava procurando apartamentos para dividir, mas uma amiga disse que a melhor coisa seria ficar em algum lugar provisório para que de lá eu fosse fazer vistorias no lugar definitivo. Por recomendação dela, que já tinha ficado com essa família, acabei me programando pra passar um mês com eles. A experiência tem sido boa, mas com seus altos e baixos.

Eles são um casal na faixa dos 40/50 e possuem dois meninos na casa dos 10. Assim que cheguei, fui todo feliz dar pés-de-moleque como se fosse uma grande iguaria e ao olharem o doce, agradeceram com um riso amarelo e nunca ninguém tocou (só eu escondido para acompanhar meu café da tarde). Depois descobri que a minha amiga já tinha levado o doce certa vez e ninguém gostou por ter muito açúcar e grudar no dente.

Com o espumante foi um pouco pior. No dia seguinte eles fizeram um jantar para receber um casal de amigos mega finos e expert em vinhos. Eu tinha comprado o espumante no Brasil, em uma loja especializada , mas deixei-me levar pela opinião da vendedora, não olhei o rótulo direito e só me dei conta da porcaria que tinha comprado quando ao servir, as bolhas pareciam de água com gás e o gosto de suco de uva. Novamente risadinhas amarelas foram dadas e a convidada mal bebeu.

Passado esse trauma inicial, comecei a me entrosar melhor na casa. A “mãe” cozinha incrivelmente bem, é muito gente boa e pelo menos duas vezes por semana há festinha na casa deles ou de alguém da vizinhança para beber e conversar. Uma excelente oportunidade para afiar o inglês, integrar e fazer amizade.

Porém, as vantagens acabam por ai. Por mais que eu tenha o meu quarto e pague uma grana semanal, eu preciso seguir o ritmo da casa. Isso quer dizer, acordar as 6:30 da manhã com criança brincando, jantar as 18:30 (e morrer de fome as 21:00) e ter que ir deitar as 22:00 pra não fazer barulho. Fica difícil escrever nesse ritmo.

Como disse, estou inativo sexualmente, e nem sozinho eu consigo me aliviar. O banheiro e meu quarto não possuem tranca, logo não dá pra correr o risco de uma criança me pegar descascando banana. Resumindo, estou há 3 semanas castrado e com o risco iminente de uma polução noturna.

Mas acordado consigo me conter. O meu foco é encontrar um emprego e uma casa com pessoas da minha idade/situação, depois resolvo a abstinência. Só que até casa e emprego são um desafio a parte.

O problema com a casa é que estamos em alta estação e o preço do aluguel sobe absurdamente, mas com trabalho isso dá pra resolver. Só que isso é o que mais pega.

Sair do Brasil com um visto de trabalho australiano é tão raro como alguém vomitar no seu sapato e você lambuzar os dedos em vômito alheio. A diferença é que apenas o segundo aconteceu comigo. Nenhuma empresa patrocina alguém a distância sem conhecer o trabalho dela.

O caminho mais fácil é entrar com um visto de estudante, que permite trabalhar 20 horas por semana, e ai mostrar serviço nesse período e achar uma boa alma que pague o visto de trabalho. Com esse visto, é mais que meio caminho andado para pegar uma residência e cidadania.

Meu inglês está muito bom, mas quero deixa-lo excelente antes de aplicar para vagas na minha área. Por isso, estou buscando qualquer emprego braçal que me permita praticar o idioma. Além disso, um dos objetivos que estabeleci desde que sai do Brasil é não tocar nas minhas economias, então arrumar um trampo e zerar meus custos é o meu esforço diário.

A primeira oportunidade surgiu para ser pedreiro. A ideia inicialmente não me agradou, pois imaginem de diretor de operações há um ano e pouco, agora virar pedreiro no exterior. Porém, viver fora do país requer um exercício constante de humildade e quebra de preconceitos. E aquilo que não mata, vira experiência de vida. Lá fui eu pra obra.

Era uma baita mansão e no fundo havia uma montanha de terra. Eu era o único pedreiro no lugar e a missão era espalhar aquela montanha ao redor da casa em dois dias. Mentalizei que aquilo seria uma boa academia e eu ainda receberia pelo exercício. Coloquei uma música, tirei a camisa e fui com sangue nos olhos. No final do dia eu tipraticamente finalizei o trabalho de dois. Estava orgulhoso da minha produtividade, mas foi uma tremenda estupidez por dois motivos.

Primeiro que o pagamento é feito por horas trabalhadas, ou seja, eu poderia ter dado uma enrolada e dobrado o meu rendimento; segundo, eu arrebentei as minhas costas. Desde pequeno tenho uma zica que se eu faço muita força na coluna, fico todo torto. Para colocar a cereja no bolo de merda, tinham me falado um valor por hora e depois revisaram pra baixo como se eu não tivesse entendido o combinado. Esse tipo de desrespeito é comum por aqui.

Pelo menos em um dia consegui pagar o aluguel da semana, mas dia seguinte eu mal conseguiria levantar da cama. Deixei a ideia de pedreiro de lado e fui tentar a de garçom, onde ganha-se menos, mas usa mais o inglês. Achei que seria inofensivo, mas tive experiências piores que a de pedreiro.

(continua no próximo post)

  • Gabriela P

    Tem o lado bom de passar por isso tudo! Felicidades na sua nova jornada, Cafa! Serei a próxima a embarcar nessa vida.

  • Glaucia

    Puts Cafa !…Oremos pra que não dê mais merda rs…Sei bem o que é isso..

  • Samara Oliboni

    Oi Cafa, sou nova por aqui. Descobri teu blog faz poucos dias. Na verdade nunca tive muita paciência para ler blogs, mas estou adorando o teu. Parabéns!

    Recomeços não são fáceis… sei bem como é! Mas também, é oportunidade para se descobrir, aprender e crescer. Boa sorte na nova jornada!

  • xxxxx

    Que legal, cafa!! Na época do vestibular eu tinha vontade de estudar fora, mesmo que precisasse trabalhar como babá ou empregada doméstica para me manter. Acabei criando raízes e cá estou, fazendo faculdade no interior mesmo e encostada no holerite de funcionária pública, cada vez mais dentro do molde. Admiro sua coragem, não é fácil sair da zona de conforto e dar a cara a tapa. Tenho 23 anos e já sinto que daqui pra frente é só ladeira abaixo.

    “It’s a dangerous business, Frodo, going out your door. You step onto the road, and if you don’t keep your feet, there’s no knowing where you might be swept off to.” Tolkien, O Senhor dos Anéis.

  • M.

    Vai dar tudo certo Cafa! Passei uma temporada em Sydney recentemente e minha primeira moradia era cara e longe, mas procurando bem depois consegui achar um lugar bem legal num bairro maravilhoso. Acho que a dica da tua amiga foi certeira, em um mês vc consegue se arranjar. Mas aluguel aí é um dos mais caros do mundo, não fica paranóico com os preços. Se tiver que mexer nas tuas economias pra viver com tranquilidade, mexa. Depois vc repõe quando começar a trabalhar mais. O importante é aproveitar esse país maravilhoso e ter uma experiência bacana, e não um trauma por morar mal.
    Esse negócio de quartos e banheiros sem tranca é bizarro mesmo, confesso que nos primeiros dias ficava morrendo de medo, mas o povo é educado e respeita demais a privacidade alheia.
    Te desejo boa sorte! E calma que em breve vc estará juntinho da sua querida!
    Ps.: por favor não abandona tuas leitoras!

  • Zizi Cris

    Começar e recomeçar nunca é fácil. Quanto aos trabalhos e nossos preconceitos, tudo termina quando vc precisa de dinheiro. E quando vc já tiver explorado todos os tipos de trabalho possíveis, poderá identificar naquilo que vc se saiu melhor, ainda que fora da sua área de atuação usual. Sabe uma coisa legal pra vc se lembrar quando ficar desanimado? Que vc tem um.monte de fãs que realmente estão torcendo por vc. Boa sorte, que vc encontre seu porto e muitas pessoas para lhe estenderem as maos.

  • Bruna

    Cafa, admiro bastante sua coragem. Eu confesso que me enxerguei bastante na sua história, pois no começo desse ano me mudei para a Alemanha. Com 20 anos, consegui uma bolsa de estudos numa universidade daqui, e vim passar dois semestres aqui, mesmo sem falar alemão tão bem (apenas sou fluente em inglês e francês) e completamente sozinha. Demorei uns bons meses até conseguir um trabalho como barista, e ainda estou penando com o alemão. Porém, apesar de todos os percalços, eu não trocaria essa experiência por nada e foi a melhor decisão que tomei na minha vida. Quando voltar para o Brasil e assim que terminar minha graduação, junto meus trapos de novo e me mando pra algum lugar dos Países Baixos, para fazer au pair. No começo nada é fácil, mas no final tudo valerá a pena!

  • Bianca Nunes

    Cafa,espero que seu inglês fique perfeito rápido e consiga um bom emprego na sua área. Me formo em medicina no final de 2016 e inicialmente vou para a Austrália como observer de um bom hospital, depois desse período de experiência pretendo revalidar o diploma e ficar.Te encontro do outro lado do mundo,cafa!
    Beijos.

  • Larissa

    Cafa!!! Acompanho seu blog desde o inicio, como varias pessoas. E lendo seus relatos sobre a Australia, fiquei curiosa de saber em que cidade vc esta! Tb estou aqui e passei por algumas dificuldades semelhantes as suas. Quesito trabalho/moradia. Gracas a Deus ng passou mal no meu sapato! hahahahaha

    • http://www.manualdocafajeste.com cafa

      Sydney, a cidade mais cara do hemisfério sul (pelo visto)

  • Lu

    Aguenta firme aí porque depois você vai sentir saudades. Eu fiz intercâmbio quando tinha 17 anos, fiquei com uma host family, e posso dizer que foi bom e ruim ao mesmo tempo. Fui parar em uma fazenda, tinha que cuidar de vacas, cabras, ovelhas e coelhos. Porém, como fui para o norte dos EUA, tinha que realizar essas tarefas em uma temperatura abaixo de zero, tipo uns -20ºC. Mas essa não foi a parte ruim, muito pelo contrário. Adorei os animais, aprendi a cozinhar, lavar roupa, limpar a casa, economizar dinheiro, enfim, aprendi a fazer coisas que no Brasil jamais tinha feito. O problema, para mim, foi minha “irmã” mais velha. Cara, a menina me odiava a troco de nada. Ela já estava na faculdade e voltava para casa aos finais de semana porque o campus ficava a uma hora de distância, e era sempre um tormento. Ela me provocava quando ninguém estava vendo e na frente dos outros era um doce de pessoa. E o pior, como eu estava na casa dela, tinha que engolir minha raiva e ficar quieta. Enfim, era uma tortura, e eu odeio essa menina até hoje hahaha.

    Também tinha horário para dormir (coisa que nunca tive na minha casa), tinha apenas um banheiro na casa para tomar banho que ficava dentro do quarto dos meus “pais”, não tinha TV, rádio, nem nada no meu quarto, o uso da internet era limitado, enfim, várias restrições. Comprei um discman (sim, sou velha), vários CDs e ficava ouvindo. Nossa, passei por tanta cilada que precisaria de dias para contar. Hoje em dia, não ficaria de jeito nenhum com uma família. Foi bom em muitos aspectos, mas é muito complicado ser um estranho na casa de alguém. Até que eu consegui administrar as coisas super bem, descobri que sou bem tolerante e flexível, mas ter sua liberdade não tem preço. Me sentia presa. Ainda bem que em breve você vai sair daí, porque é bem complicado lidar. Enfim, boa sorte aí sendo um estrangeiro (isso também é bem complicado)e fuja de morar com família.

  • Aline Gontijo

    Cafa, até seu post meio mau humorado me faz rir, desculpe, mas não combina em nada com voce ser pedreiro! Ahahaha
    Desculpe a brincadeiras, mas fiquei meio triste por voce. Anda sumido mesmo e passando esses perrengues por ai….. Mas tudo vai dar certo!! Se cuida!

  • Marília

    Muito bacana de voce ter se acertado com a moça e estar aguardando o momento certo de ficarem juntos. Fico aliviada e esperançosa com isso. Sou muito da crença que temos sim muito pra conquistar, mas nem sempre vale a pena deixar certas pessoas passarem por conta de conquistas individuais. Dá sim pra unir as duas coisas, e sua experiencia na Austrália, juntamente com a surgimento dessa garota (e o momento de ficarem juntos se oficializar) irá engrandece-lo como ser humano :) As pessoas ultimamente agora vivem com a síndrome de Sandy (síndrome de Sandy=não posso namorar, estou focada no trabalho).

  • Didi

    Boa sorte querido, logo logo tudo entra nos eixos. Esse tipo de experiência em outro país muda muito a nossa cabeça, que seja um tempo maravilhoso pra você .. autoconhecimento, crescimento na carreira e muito sucesso, você merece! Não nos esqueça, please.

  • Iohanna Karen Alves

    Dificuldades à parte, adorei muito seu relato de experiência, cafa! Confesso que ri muito (mas muito mesmo) de algumas partes do texto, mas espero que tudo logo comece a se encaminhar direitinho na sua vida aí. Aguardando ansiosamente o proximo post 😉

  • Di

    Só uma palavra:ansiosa pela continuação. Tá sendo melhor que sexta das leitoras hahaha