RELACIONAMENTO 6 de março de 2017

Relacionamentos falidos, até que a morte os separe

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Lá na casa dos 20 anos, a acomodação em um relacionamento parece algo distante, que acontece na idade dos nossos pais. Porém, a verdade é que nos 30 ela já assombra um monte de relacionamento. Particularmente de dois anos pra cá eu conheci uma cacetada de casal acomodado vivendo uma relação falida.

Um deles me intrigava. É um ex-colega de trabalho que também morava na Austrália e “juntado” com uma russa. Ele é chef em um restaurante e ela psicóloga, ambos na casa dos 35/40. O cara é um batalhador, nasceu na miséria no Brasil, mas correu atrás, estudou e hoje tem uma estabilidade bacana; ela teve mais oportunidade na vida e foi pra Austrália transferida de uma multinacional na Alemanha. Eles se conheceram há três anos em um desses aplicativos de relacionamento e depois de alguns meses já estavam morando juntos.

Não sei qual foi a atração mútua (talvez sexual), mas parece um casamento de uma garça com um burro. Ela delicada e educada (não que uma garça tenha educação, mas deu pra entender, né?), ele um brutamontes teimoso. Nunca vi uma troca de carinho, elogio ou palavra de admiração. Pelo contrário, sempre que saíamos de casal, eles brigavam ou tinham opiniões conflitantes. Quando saíamos apenas os homens, ele azarava a mulherada. E não era uma coisa discreta ou apenas um comentário de “olha essa gostosa”, era algo bem pedreirístico e ofensivo. Eu perguntava por que ele simplesmente não terminava e aproveitava a sua solteirice, ele dizia que ia tomar uma decisão em breve, mas nada acontecia. E até hoje nunca aconteceu.

No segundo caso, algumas semanas depois que cheguei à Espanha, minha namorada e eu alugamos um quarto em um apartamento que dividíamos com um casal venezuelano na faixa dos 30. A garota era bastante boazinha, mas parecia que namorava uma negação, ele não tinha expressão, não trabalhava, não cozinhava, não montava a mesa, não lavava um copo. A coitada fazia tudo para ele e nenhum elogio tinha em troca. A comida ficava pronta e ela gritava da cozinha “Orr” (de Orlando) e as vezes ele fazia malcriação, pois queria comer no quarto e ela insistia para que fossem pra sala. Certa vez o bebezão não quis jantar, pois a empanada pronta que compraram tinha cebola e ele não suporta o tubérculo. É um cara boa pinta e atlético de 28 anos, mas suas atitudes eram de um adolescente mimado e bobo.

Não colocarei aqui todos os casos, mas como eu disse, foram muitos. Parece que as pessoas depois de certa idade tem medo de ficar sozinhas e ai caminham a vida arrastando a corrente de um relacionamento moribundo.

Eu nunca fui fã de cerimônia católica de casamento, aquele ritual brega, exagerado e caro pra casar em uma igreja onde o padre repete um monte de lugar-comum e frases bíblicas sobre o matrimônio. Cansativo, repetitivo e inútil. Porém, certa vez fui a um casamento anglicano, em que o padre não era um mero ventríloquo, falava coisas autênticas. Uma me marcou bastante. Logo no final da cerimônia ela repetiu o bordão “até que a morte os separe”, mas complementou que a morte não necessariamente seria a do corpo, mas (e principalmente) a do sentimento. O dia em que o respeito e consideração pelo outro não existisse mais, essa seria a morte e a separação o caminho.

Por um mundo com menos correntes arrastadas, mais sinceridade, até que a morte os separe.

  • Sagitariana

    Cafa,
    Concordo com seus argumentos, porém acho que o tempo vai tornando tudo bem rotineiro e o carinho inicial se apaga mesmo, parece que acabamos virando mais amigos do que qualquer outra coisa.
    Defendo que uma relação pra ser boa, ambos precisam de espaço pra sentirem falta um do outro, pra gerar saudade até porque o excesso de carinho estraga, penso eu

    • http://www.manualdocafajeste.com cafa

      Eu concordo contigo. Só que mesmo em uma relação de amigos rola uma troca / afeto, não uma eterna disputa ou um ganha-ganha.

      • Sagitariana

        Sim, exatamente. Parceria é fundamental.
        Obrigada por atualizar o blog com mais frequência.
        Ansiosa por um dia das leitoras eletrizante.

  • Vitória Izabel Castro

    Excelente texto, essa é mesmo a realidade atual!
    Ps.: Cebola não é leguminosa, é tubérculo! 😉

    • http://www.manualdocafajeste.com cafa

      Ops! corrigido, valeu 😉

  • Marília

    As pessoas têm medo mesmo. E por mais que ser solteiro hoje esteja em alta, quem está num relacionamento acha que tem mais vantagem. Eu fui mais solteira que comprometida na vida, e vejo o quanto as mulheres ao meu redor sentem pena de mim. Algumas já cogitaram que eu tinha defeitos incorrigíveis, outras de que eu talvez seja exigente demais e as outras sempre tentam me arrumar qualquer pessoa que elas acham na rua para me apresentar pois acham que “combina comigo”.
    Certa vez uma prima estava conversando comigo sobre os conflitos eternos e frequentes que ela tinha com o namorado dela. Ela estava se agarrando à ideia de casamento (na época creio que estava no segundo ano de relacionamento). Então ela confessou que tinha medo de ficar só (a menina tinha 23 anos) e não encontrar mais ninguém e pá.
    Hoje estão beirando os 4 anos, ela já não tem tanta empolgação na relação e até queria viver uma “aventura”, pois acha que o namorado dela a trai – ela acha, não tem certeza – e por isso mesmo concorda que viver uma relação por fora não ia dar em nada. Eu até que não vejo nada de errado nisso, mas sinto e vejo que a relação dela é falida.
    Outro foi um amigo que voltei a ter contato esta semana. Eu fiquei com ele por 8 anos, cada ano a gente se encontrava umas duas vezes. Nesse tempo todo ele namorou e o namoro sempre foi de ruim pra péssimo. São 9 anos de uma relação conflituosa, com a garota brigando quase todo dia com ele, com crises de ciúme direto, não casaram e ainda tiveram um filho não planejado. Ele me confessou que não está mais aguentando (olha só, demorou 9 anos pra ele se tocar) e claramente mostra que os dois não são felizes e não têm uma relação saudável. Ele disse que não sabe como vai ser por causa do filho, tem medo de terminar e que acha que vai continuar empurrando com a barriga. Ela foi a única namorada dele. E ela, que eu também conheço, é o segundo relacionamento que ela repete os mesmos comportamentos.
    Por mais que ser solteiro seja ótimo para quem vive, para quem está de fora é um pavor se imaginar assim porque assim eles evitam se conhecer e saber das suas misérias. Ser solteiro por muitos anos, como meu caso, me obrigou a ter uma tarefa dolorida, difícil, mas gratificante que foi o autoconhecimento. Mas tem gente que tem pavor de se conhecer e descobrir coisas que fogem do normal. Eu quando falo dos meus relacionamentos sempre minto que o último casinho foi namorado por 6 meses. Minto para não ter que ver a cara de pavor que meus amigos (homens também) fazem quando imaginam que não aguentariam ser solteiros por muitos anos e para evitar o mal estar que sinto toda vez que eles passam uma ideia do quanto sou fracassada.
    Eu também não aguento, queria sexo toda semana, mas sinto que não aguentaria uma relação de bosta por mais de 6 meses.
    E o pior que o mais fracassado é quem insiste em jaulas que muitos veem como relacionamentos saudáveis.

  • Carol

    Oi, Cafa!! Sou sua leitora antiga e é impressionante como os textos evoluíram de acordo com os momentos que passei em minha vida. Da adolescência à vida adulta, hoje me encontro exatamente nesta situação de relacionamento falido, por certo medo de ficar sozinha. Confesso que, principalmente para as mulheres, está bem complicado encontrar alguém bacana para dividir a vida, e, realmente, sempre fica aquele receio de trocar o “certo” pelo duvidoso e acabar se arrependendo. As pessoas estão cada vez mais superficiais nos relacionamentos e isso me entristece muito, pois sempre busquei algo mais maduro. De qualquer forma, sabemos que existem casais que estão há muito tempo juntos, mas ainda se admiram e tem um relacionamento satisfatório. Coragem para nós!

  • Gabriela Santos

    Medo de ficar sozinho é bem complicado. Minha irmã casou mais ou menos por isso e é óbvio que ela não admite. Mas eu é que sei quantas e quantas noites já não fiquei ouvindo lamentações. E como eu sou “delicada”, já vou logo falando: não ta satisfeita? chuta o balde! Já tentou e tentou e nada. Mas parece que entra em um ouvido e sai pelo outro! ¬¬

  • Elaine

    Verdade. Quando o amor acaba melhor se separar ou o que era doce vira sal e como isso machuca. Aconteceu comigo e é muito triste.
    Agora estou sozinha mas em paz. Isto não tem preço.